Periferia


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Periferia é um termo que evoca múltiplos sentidos e usos. Pode ser mobilizado para descrever a posição que comunidades, territórios e grupos sociais ocupam em relação a equivalentes tidos como centrais ou hegemônicos. Pode ainda se referir à condição de sujeitos, coletividades e objetos que estão à margem de centros de produção econômica e simbólica, bem como nomear processos sociais urbanos e regiões localizadas nos arredores de um centro geográfico.

No âmbito da teoria social, a periferia é forjada como uma das categorias explicativas da formação do sistema capitalista mundial, um sistema social de trocas simbólicas, dependência econômica e relações de poder entre países em função do papel que ocupam na ordem produtiva e política. Por ser marcado por uma série de assimetrias e desigualdades, na periferia desse sistema estão todos os Estados que, entre outros aspectos, concentram atividades de baixo valor, fornecem matérias-primas e mão de obra não especializada, além de demandarem empréstimos, conhecimentos e tecnologias de países considerados centrais.

O termo periferia também pode servir para dimensionar grupos sociais afetados pelas estruturas de poder e de prestígio que se organizam depois de eventos históricos – como a colonização, a escravização de povos africanos e a consolidação do capitalismo. A condição periférica descreve, nesse sentido, as múltiplas circunstâncias de opressão e marginalização a que são submetidos, por exemplo, indígenas, negros, mulheres e pessoas LGBTQIA+, colocados em situação de subalternidade social, mesmo quando localizados em espaços hegemônicos.

Nos estudos urbanos, o termo é utilizado para nomear áreas que surgem a partir dos anos 1940 ao longo da expansão das cidades brasileiras e são marcadas por um tipo de urbanização específica. Distantes geográfica e simbolicamente dos centros urbanos, as periferias se formam a partir de loteamentos, muitos deles irregulares, ocupados pela população pobre em busca de moradia – historicamente, trabalhadores de baixa renda e migrantes, a maioria identificada como negra. 

Os bairros periféricos apresentam certa homogeneidade de condições de vida, marcados pela predominância da autoconstrução de casas, falta de infraestrutura adequada (como redes de saneamento, luz elétrica e asfalto) e de serviços públicos básicos (educação, atendimento à saúde, transporte coletivo etc.), além de níveis acentuados de pobreza, violência e informalidade. 

Essas características também produzem outras dinâmicas sociais e sujeitos políticos diversos. Assim, as periferias são conhecidas pelas formas particulares de organização social e de atuação de seus moradores na cena pública (mutirões de construção de casas, clubes de mães engajadas por direitos sociais, movimentos por saúde e educação) e pelos circuitos de lazer e produção cultural peculiares (bailes de forró, rodas de samba e batalhas de rap).

Estudos realizados nos últimos trinta anos, no entanto, problematizam a persistência de padrões socioespaciais homogêneos nas cidades, assim como revisam criticamente o modelo dicotômico centro-periferia que orienta parte da produção acadêmica e das políticas públicas sobre o tema. Situações cada vez mais diversificadas tanto no centro como nas periferias explicam essa mirada, como a expansão dos serviços públicos e a especulação imobiliária em áreas periféricas, a inserção de membros das camadas populares em moradias das regiões centrais (mesmo que em cortiços e ocupações), o deslocamento das camadas altas para condomínios de luxo em periferias, a formação de novas centralidades econômicas e de áreas que concentram maior pauperização e exposição cumulativa a variados tipos de risco ambientais (as chamadas hiperperiferias). 

Outras interpretações passaram a destacar as complexidades e os aspectos distintivos das periferias para além de referenciais sociocêntricos. Ao qualificar esses espaços e seus moradores como agentes que produzem as cidades, essas novas análises lhes conferem sentido e identidade por meio de seus modos de ocupar o espaço, suas práticas cotidianas, sua capacidade de mobilização, inventividade, resiliência e potência criativa.

É preciso considerar ainda que as relações estabelecidas com as periferias conformam subjetividades, perspectivas críticas, sentimentos de pertença e orgulho que orientam discursos e práticas daqueles que habitam nesse tipo de espaço social ou vivenciam condições periféricas. Isso se dá, por exemplo, nas estéticas e atuações político-culturais construídas por artistas e ativistas ligados a expressões surgidas nas periferias, como o samba, o funk, o hip hop, a literatura periférica e o cinema de quebrada; e na ressignificação que movimentos negros operam ao enunciar a periferia como uma espécie de “quilombo urbano”, associação que, ao mesmo tempo, aponta para as condições de vida da população negra nas cidades e sinaliza as formas de organização cultural e política que expressam resistência e contestação aos modelos econômico, político e social vigentes.

O termo periferia pode remeter a conjunturas diversificadas nos níveis conceitual e empírico, além de mobilizar múltiplos sentidos, discursos, práticas e identidades. Periferia, além de polissêmico, é um termo em disputa. O que parece relevante, contudo, é sua pertinência para se referir a alguns processos sociais e certa realidade que concentra populações marginalizadas econômica, racial e socialmente, ou ainda, sua legitimidade interpretativa e operacional quando estão em jogo outras referências materiais e simbólicas.