Negritude
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O conceito de negritude emerge como uma forma crítica de pensamento que ressignifica os estereótipos depreciativos relacionados ao negro. A partir de um novo discurso de valorização e orgulho, reinscreve a população negra na ordem vigente. Tem por objetivo reposicionar a origem e a cultura africana e promover a mobilização individual e coletiva para reagir e transpor a dominação colonial. Em sentido amplo, a negritude significa resistência e ação diante da opressão racial em suas dimensões sociais, políticas, culturais e econômicas concretas.
A noção de negritude surge entre as décadas de 1930 e 1940 no âmbito do movimento político e cultural anticolonial e de valorização e afirmação da identidade negra de origem africana. O termo é originalmente cunhado por escritores francófonos, como o martinicano Aimé Césaire (1913-2008), o guianense Léon Damas (1912-1978) e o senegalês Léopold Sédar Senghor (1906-2001). A formulação pretende oferecer uma nova visão de mundo, fundamentalmente negra, que reconhece e valoriza a cultura negra, ao mesmo tempo em que rejeita a hegemonia branca, eurocêntrica e colonialista. Essa tomada de consciência do significado de ser negro e apropriação autoafirmativa da identidade ganha diferentes formas e adquire proporções globais.
Apesar do termo ser criado em fins dos anos 1930, parte das ideias e dos significados condensados sob o signo da negritude estão presentes nas práticas de resistência à escravização, como a revolta e os ideais de liberdade inscritos já nas primeiras formações quilombolas. A revolução haitiana, vitoriosa na virada do século XIX, logra a independência e a abolição da escravidão ainda em 1804, e o panafricanismo anti-imperialista, difundido por figuras como o escritor estadunidense William Edward Burghardt Du Bois (1868-1963), se desenvolve nos anos iniciais do século XX. Esses são alguns dos exemplos de grandes símbolos e estímulos para a emergência da negritude como identidade positivada e que se constrói de maneira contrária às noções atribuídas pela subjugação colonial. Eles abrem passagem para o deslocamento da posição de objeto do negro escravizado para a de sujeito da própria história.
A disseminação do conceito de negritude não ocorre sem críticas. Em boa parte delas, interroga-se a suposta essencialização da raça negra, a produção de uma imagem idealizada de África e de um sentido abstrato e pretensamente homogêneo de comunidade. Ao longo da história e nos mais diferentes contextos, essas dinâmicas de questionamento ampliam, constroem e reelaboram os significados da negritude de diversas maneiras.
A estratégia de afirmação da negritude assume que raça existe enquanto construção social e política, com consequências profundas e perversas na distribuição de poder e no acesso a recursos materiais. Por isso, a consciência racial envolve a produção e a promoção de uma memória compartilhada, a recusa à assimilação da cultura hegemônica branca e a aposta na transformação da linguagem. Essa autodeterminação produz reconhecimento, pertencimento e legitimação para a ação coletiva baseada na experiência de resistência e enfrentamento do preconceito e da discriminação racial. No cruzamento entre cultura, estética e política, a negritude se desdobra em movimento literário e cultural, pensamento teórico, práticas e iniciativas políticas diversas, articulando certa noção de fluxo de ideias afrodiaspóricas e transatlânticas que partilham um passado histórico e uma herança ancestral comum.
As décadas de 1960 e 1970 são assinaladas como o período em que a negritude é consagrada como conceito e popularizada como prática político-social. Alguns exemplos que marcam esse período são os movimentos africanos de libertação, a emergência de mobilizações político-culturais, como o Black Power e o Black is Beautiful, o rap e o hip-hop nos Estados Unifos, o reggae e o rastafari no Caribe e o afro-beat africano. No Brasil do início dos anos 1970, surgem os blocos afro, como o Ilê Ayê, e o Movimento Negro Unificado (MNU).
Em âmbito nacional, a emergência da negritude lida com a ideologia do embranquecimento como uma face não evidenciada, porém implícita, do discurso oficial da democracia racial. Ainda nesse período, significa também um ponto de virada importante em direção ao reconhecimento do racismo na sociedade brasileira e de forte ação do MNU em uma agenda de desconstrução do mito da democracia racial.
A negritude como identificação positiva e afirmativa significa tomada de consciência do colonialismo eurocentrado e resistência a ele, além da perpetuação e da valorização das experiências, narrativas, cultura e histórias negras ao redor do mundo.