Nilma Bentes


1948

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Foto: Nay Jinknss/UOL/Folhapress

Atualização 13/04/2023

Raimunda Nilma de Melo Bentes (Belém, Pará, 1948). Agrônoma, ativista. Líder do movimento negro na região amazônica, funcionária do Banco da Amazônia e fundadora do Centro de Defesa e Estudos do Negro do Pará (Cedenpa), é considerada referência para os movimentos negros e de mulheres negras do Norte do Brasil, mobilizando encontros na região e articulando apoio para as pautas da comunidade negra. 

Nascida em família pobre, tem oito irmãos. Os pais trabalham em uma fábrica de quebrar castanha. Posteriormente, o pai se torna motorista e a mãe realiza serviços como lavadeira, vendedora de tacacá, cuscuz e carvão ao lado da avó. Os filhos da família estão também envolvidos nessas atividades.

A formação educacional se dá em escolas públicas, do antigo grupo escolar à universidade. É na escola que lida diretamente com a discriminação racial. Mesmo frequentando o ensino público, tem poucos colegas negros em sala de aula. Em suas memórias, relata a dinâmica complexa nas relações raciais no Norte do país, e denuncia que indígenas e negros são discriminados nas escolas.

Conclui o curso científico no Colégio Estadual Paes de Carvalho e, em 1968, ingressa no curso de agronomia, espaço majoritariamente masculino, na Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra). Passa a atuar nas mobilizações estudantis e obtém o título de bacharel em 1971. Presta concurso público e ingressa no Banco da Amazônia, para o qual trabalha por quase três décadas, analisando projetos rurais, especialmente ligados à área da pecuária.

No início da década de 1980, quando os movimentos negros na região amazônica estão em franca articulação, Nilma Bentes, Felisberto Damasceno e Zélia Amador (1951) fundam o Cedenpa, que se torna uma organização juridicamente legal em 27 de abril de 1982. Nesse período, uma referência importante para a trajetória da militância do movimento negro do Norte e do Nordeste é a articulação realizada, especialmente por Abdias do Nascimento (1914-2011), para a construção do Parque Memorial Quilombo dos Palmares, na Serra da Barriga, Alagoas. Nessa mobilização de caráter nacional, envolvem-se organizações nordestinas, e os representantes do Cedenpa estão presentes desde as primeiras reuniões.

Ao longo da década de 1980, há vários encontros negros das regiões Norte e Nordeste, que contam com o apoio da Ford Foundation, uma das principais agências internacionais que oferecem suporte financeiro ao movimento antirracista no Brasil, especialmente nos anos de 1980 e 1990. Um dos encontros, em 1987, acontece no Pará e conta com a articulação do Cedenpa, que participa da série de reuniões dos Encontros Norte-Nordeste, celeiro para o fortalecimento das organizações, coletivos e lideranças negras daqueles territórios. Nesse encontro, são elaboradas várias propostas que devem ser encaminhadas para os deputados constituintes, já que o processo de reforma constitucional no país está em pleno vapor naquele ano. Dessas propostas, o tema da reparação para as populações negras tem destaque, porém não permanece na versão final do texto constitucional. Destaca-se também a demanda por reconhecimento das terras para descendentes das populações quilombolas, que se torna direito constitucional em 1988.

Como líder do Cedenpa, a ativista está envolvida com várias ações importantes da organização, desde as atividades culturais, como as do bloco Afro, até as atividades estritamente políticas da organização, a exemplo de demandas por projetos de lei ou mesmo denúncias de discriminação racial. Como estratégia de formação política, Nilma e Zélia Amador são responsáveis pela escrita de cartilhas antirracistas, como Raça negra: a luta pela liberdade (1986) e Noções sobre a vida do negro no Pará (1989), por exemplo.

Junto ao Cedenpa, atua em várias frentes de combate ao racismo, como a criação do conselho municipal do negro em Belém (1998), a criação da delegacia de crimes discriminatórios (2001), além da criação da Seção Técnico-Pedagógica de Relações Raciais na Secretaria de Educação do Estado do Pará, que atua no combate ao racismo nas escolas. Destaca-se o apoio institucional à luta pelos direitos territoriais das populações indígenas e quilombolas no estado, seja na organização coletiva dos grupos, seja na titulação de suas terras e nas denúncias de violações e violências na região contra esses sujeitos de direitos.

Embora pouco conhecida entre a maior parte dos brasileiros, as histórias de mulheres negras do Norte ajudam a compreender a dinâmica das relações raciais da região e seu imbricamento entre os temas das populaçõe indígenas e negras, assim como as relações de alianças entre as comunidades rurais e urbanas nas lutas pela garantia da cidadania no país. 

A biografia de Nilma Bentes mostra relações importantes na região amazônica, assim como evidencia as influências das regiões Norte e Nordeste para a formação do movimento negro no Pará. As dinâmicas local e nacional fazem parte de seu ativismo, assim como a interface entre sociedade civil e Estado, revelando uma característica comum do movimento negro no Pará e que se assemelha às experiências de outras partes do Brasil.