Laudelina de Campos Melo


1904

1991

  • Descrição
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Laudelina de Campos Melo (Poços de Caldas, Minas Gerais,1904 – Campinas, São Paulo, 1991). Conhecida como Dona Nina, desde muito jovem se destaca pela incansável defesa dos direitos das mulheres, especialmente as negras. Com a vida marcada pelo trabalho doméstico iniciado aos 7 anos, entra para história do país por sua trajetória de luta e conquistas, como a fundação do primeiro sindicato de trabalhadoras domésticas do Brasil, em 1988.

Filha de Maria Maurícia de Campos Melo e Marcos Aurélio de Campos Melo, neta de escravizados, aos 12 anos perde o pai em um acidente de trabalho. Precisa abandonar a escola ainda no primário para cuidar dos cinco irmãos menores e ajudar a mãe no preparo de doces caseiros vendidos na cidade. Da mesma maneira que começa a trabalhar muito cedo, inicia sua trajetória de luta por direitos das mulheres aos 16 anos. Atua em organizações de mulheres negras e de cunho cultural e é eleita presidente do Clube 13 de Maio, agremiação que promove atividades recreativas e políticas entre os negros de sua cidade.

Muda-se para São Paulo aos 18 anos, para trabalhar como doméstica, e aos 20, para Santos, onde se casa com Geremias Henrique Campos Mello. O casal passa a morar em Campinas, onde têm dois filhos. Ela participa do Sindicato da Saudade de Campinas, grupo cultural negro santista. Somente após a separação em 1938, passa a atuar nos movimentos populares e integra o Grupo da Frente Negra, que reúne várias entidades com a proposta de ampliação política e cultural para a população negra. Sua militância ganha tom mais político com sua filiação ao Partido Comunista Brasileiro, em 1936, ano em que funda também a primeira associação em defesa das trabalhadoras domésticas do país. Durante o governo ditatorial de Vargas, com a proibição de organizações de trabalhadores, as atividades da associação são suspensas e retornam após a abertura política, tendo Laudelina à frente como presidente.

Em 1948, muda-se para a cidade paulista de Mogi das Cruzes, para gerenciar um hotel fazenda da família para a qual trabalha como governanta. Após a morte de sua patroa, retorna para Campinas, mas encontra dificuldade na busca por um novo emprego, pois os anúncios do jornal Correio Popular dão preferência às empregadas brancas. Laudelina se manifesta contra os anúncios preconceituosos publicados. Durante esse período, ganha dinheiro com uma pensão que monta e salgados que vende em campos de futebol, além de atuar como trabalhadora doméstica até meados dos anos 1950.

Em 1961 entra para o Movimento Negro de Campinas. Funda a Associação Profissional Beneficente das Empregadas Domésticas nas dependências do Sindicato da Construção Civil de Campinas. A instituição atua em diferentes frentes, em especial na luta contra o preconceito racial. A inauguração da associação se realiza em 18 de maio de 1961 e conta com cerca de 1.200 trabalhadoras domésticas. Com o golpe militar de 1964, para não fechar a associação, Laudelina aceita abrigá-la na União Democrática Nacional (UDN). Em 1968, adoece durante o processo de sucessão da associação, o que leva à dissolução da entidade. A associação serve de exemplo para que se criem agremiações semelhantes no Rio de Janeiro (1962) e em São Paulo (1963). 

A atuação de Laudelina é fundamental na década de 1970 para a conquista do direito à carteira de trabalho e à Previdência Social. Em 1972, é peça fundamental na elaboração do projeto de lei que formaliza a atividade de doméstica na legislação trabalhista brasileira. Na década seguinte, integra caravanas em direção à Brasília para pressionar parlamentares e garantir mais direitos às domésticas na elaboração da nova constituição. Em 1982, a Associação Profissional Beneficente das Empregadas Domésticas é reestruturada, e Laudelina, sindicalizada em 20 de novembro de 1988, retorna à direção da instituição.

Atua também em universidades brasileiras por mais de trinta anos, o que lhe rende reconhecimento pela competência e o cargo de chefe do Departamento de Sociologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ). 

Em 1989, é criada a ONG Casa Laudelina de Campos Mello, dedicada a celebrar a atuação e a militância de Laudelina. Em 12 de maio de 1991, Laudelina falece, aos 86 anos, em Campinas, deixando sua casa para o sindicato da cidade e um legado que impulsiona trabalhadoras domésticas a se organizarem.

Em 2013, com a chamada PEC das Domésticas, o trabalho doméstico passa ser regulamentado segundo as regras trabalhistas que regem os direitos dos trabalhadores rurais e urbanos. Em 2015, a vida e a trajetória de Laudelina são eternizadas no documentário Laudelina: lutas e conquistas, fruto da parceria entre o Museu da Cidade e o Museu da Imagem e do Som (MIS), ambos de Campinas. O filme combina a atuação da atriz Olívia Araújo (1972), que interpreta Laudelina, com trechos de entrevista com a ativista feita em 1989.

Em 12 de maio de 2021, data que marca os trinta anos de falecimento de Laudelina de Campos Melo e seus mais de 85 anos de lutas pelas trabalhadoras domésticas do Brasil, é protocolado o projeto de lei que inscreve seu nome no Livro de heróis e heroínas da pátria, depositado no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves, em Brasília. Ainda em 2021, o jornalista de Francisco Lima Neto lança o livro Laudelina, dirigido a crianças e adolescentes

Indispensável na luta pela conquista de direitos trabalhistas para empregadas domésticas, combativa desde muito jovem, Laudelina Campos Melo revela ser uma mulher à frente de seu tempo que luta de todas as formas contra o racismo e o machismo na sociedade brasileira.