Antonieta de Barros
11/07/1901
28/03/1953
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Antonieta de Barros (Desterro, atual Florianópolis, Santa Catarina, 1901 – Idem, 1952) Professora, oradora, parlamentar, militante da área educacional e ensaísta. Entra para a história brasileira por ser considerada a primeira mulher negra de Santa Catarina eleita deputada tão logo as mulheres brasileiras conquistam o direito ao voto.
Conhecida como Maria da Ilha, filha de Rodolfo de Barros e Catarina, escravizada liberta e lavadeira. Órfã de pai, é criada pela mãe que trabalha como doméstica na casa do político Vidal Ramos (1866-1954), pai de Nereu Ramos (1888-1958) [1]. É alfabetizada por estudantes que moram na pensão fundada por sua mãe para complementar a renda familiar. Conclui os estudos primários [2] na Escola Lauro Müller e, aos 17 anos, ingressa na Escola Normal Catarinense [3] e se diploma em 1921.
Torna-se oradora, jornalista, escritora e militante, com atuação na Liga do Magistério. Em Florianópolis, leciona língua portuguesa e literatura na Escola Normal Catarinense, no Colégio Coração de Jesus e no Colégio Dias Velho – assume a direção deste último colégio entre 1937 e 1945. Entre 1933 e 1951, é professora na Escola Normal Catarinense, da qual se torna diretora de 1944 a 1951. Em 1922, funda o Curso Particular Antonieta de Barros, destinado à alfabetização da população em situação de vulnerabilidade social, e permanece à frente da direção da escola até 1952.
Sua trajetória na política começa em 1934, na primeira eleição em que as mulheres brasileiras podem votar e receber votos. Filia-se ao Partido Liberal Catarinense, tornando-se a primeira mulher de seu estado a se eleger para uma cadeira na Assembleia Legislativa. Enquanto preside trabalhos no Congresso Legislativo, dedica-se a propostas relacionadas ao magistério, como a que institui 15 de outubro como o Dia do Professor. Entre os feitos políticos, contribui para elaborar a Constituição do estado de Santa Catarina, em 1935, tendo escrito os capítulos “Educação e Cultura” e “Funcionalismo”. Exerce mandato na Assembleia Legislativa de Santa Catarina até 1937 e concorre novamente para deputada estadual em 1945, sendo eleita suplente. Assume o mandato entre 1947 e 1951.
Como jornalista, destaca-se pela criação e direção do jornal A Semana (1922-1927), no qual expressava em suas crônicas os ideais ligados especialmente à educação, à política, à emancipação feminina e ao combate ao racismo. Na década de 1930, dirige o periódico Vida Ilhoa, também publicado em Florianópolis.
Nas crônicas publicadas no jornal República é possível notar seu esforço para produzir uma reflexão filosófica sobre sua época, sobre as mudanças sociais e sobre o papel das mulheres em meio a essas transformações. Em seus escritos, percebe-se a atenção da jornalista para as mudanças sociais. Seus discursos são pontuados pelas orientações políticas de seu partido. Em seus textos, aponta para a desigualdade no plano intelectual entre homens e mulheres como consequência do atraso educacional e da falta de oportunidades oferecidas a elas. Esses textos são reunidos e editados em 1937, no livro Farrapos de ideias, o primeiro publicado por uma mulher negra em Santa Catarina. A obra tem por objetivo angariar fundos para a construção de uma escola, chamada de Preventório [4], para abrigar filhos de pais portadores de hanseníase internados na Colônia Santa Tereza. O livro reúne textos que falam da vida em geral, do amor de Cristo (marcando sua posição religiosa católica como profunda conhecedora dos textos sagrados), da defesa do ensino e da cultura e, sobretudo, da missão de ser professora, tema que inicia e encerra o livro.
Também publica textos em outros periódicos, como Folha Acadêmica, O Idealista, Correio do Estado e O Estado, sobre aspectos do cotidiano da cidade e ocorrências nacionais. Católica e propagandista dos valores morais e cristãos, discorda com ironia do crédito dado aos homens pelos escritos religiosos. Defende a favor da ampliação da educação feminina, do voto e da inserção das mulheres no mercado de trabalho, além de reivindicar a equiparação salarial entre homens e mulheres e denunciar o machismo e a exclusão das mulheres do ensino superior, uma das poucas frustrações da carreira de Antonieta: deseja cursar a Faculdade de Direito, mas a instituição é exclusiva para homens. Embora defenda a mudança e a instauração de um lugar novo e diferente para as mulheres, não postula uma ruptura radical dos papéis normativos. Essas complexidade e ambiguidade se refletem em seus textos.
Em 15 de dezembro é criada a Medalha de Mérito Antonieta de Barros, em homenagem a sua trajetória de vida e aos feitos em favor da educação. Este prêmio é concedido a pessoas físicas e jurídicas autoras de trabalhos relevantes ou com destaque na defesa dos direitos das mulheres. Seu nome é emprestado a ruas de bairros de sua cidade natal, ao túnel da Via Expressa Sul de Florianópolis [5] e a um auditório da assembleia legislativa de Santa Catarina. Em 2015, a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial cria o Prêmio Antonieta de Barros, voltado para jovens comunicadores negros brasileiros. No mesmo ano, a cineasta paulista Flávia Person conclui o documentário Antonieta, no qual busca resgatar e preservar a memória da professora e militante.
Em 28 de março de 1952, falece no Hospital de Caridade em Florianópolis, aos 51 anos, sem deixar herdeiros. Marcada pelos limites sociais impostos às mulheres de sua época, provocativa e precursora em diversas áreas, Antonieta de Barros faz da luta contra o racismo e o machismo e da defesa da educação sua missão de vida, com reivindicações até hoje presentes na sociedade brasileira: educação para todos, emancipação feminina e valorização do negro e de sua cultura.
Notas
[1] Vice-presidente do Brasil entre 1946 e 1951; Presidente da República entre 11 de novembro de 1955 a 31 de janeiro de 1956.
[2] Atual Ensino Fundamental.
[3] Atual Instituto Estadual de Educação, diploma-se no curso equivalente ao atual Ensino Médio.
[4] Atual Educandário Santa Catarina
[5] O Túnel Antonieta de Barros, que liga o centro ao sul da ilha pelo bairro José Mendes, foi inaugurado em 24 de agosto de 2002.